terça-feira, 19 de abril de 2011

Sagrada ou manipulada? – Parte 1


Gosto muito de ler. Tenho a imagem muito clara na minha mente de quando eu era criança 
e via minha mãe e meu pai, cada um de um lado da cama, com seus abajures ligados 
lendo um livro de pelo menos 500 páginas. É fácil ler, difícil é pensar na Bíblia como 
um livro “normal”. Algumas pessoas que querem defender a Bíblia usam o seguinte 
argumento: Como as pessoas podem acreditar com muito mais facilidade em livros 
“normais” que são comprados numa livraria do que em um livro como a Bíblia, que tem 
muito mais evidências para ser verdade? Existe apenas um problema com essa 
argumentação: ninguém usa um simples livro de livraria como regra de vida!

Neste estudo, precisamos saber o que pensar a respeito de um livro que alega ser um manual sobre (1) o que aconteceu no passado, (2) o que vai acontecer no futuro, (3) o que devemos crer, e (4) como devemos viver. Essas são quatro questões muito sérias que não devem ser tratadas levianamente. Neste primeiro artigo, nos concentraremos no Antigo Testamento. 
Como sabemos que esses 39 livros realmente são o que dizem que são, ou que os eventos ocorreram da forma como estão escritos? Se devemos usar esse livro como parte fundamental da nossa vida, precisamos de evidências!
                                    
                                  

Transmissão do Antigo Testamento
Quando se faz a ousada afirmação de que um livro é a revelação 
da Palavra de Deus, as dúvidas invadem o cérebro humano. Precisamos primeiramente ter certeza de que o documento é historicamente confiável; de que ao longo de sua transmissão, 
com o passar de tantos anos, foi possível manter intacta a 
mensagem original. Principalmente no que se refere ao Antigo Testamento, que remete a pelo menos 3.500 anos atrás!

Os copistas começaram oficialmente o árduo trabalho de fazer 
cópias do Antigo Testamento por volta de 70 d.C. Eles 
desenvolveram métodos extremamente exigentes para fazer essas cópias. Cada página do manuscrito bíblico deveria ter o mesmo número de colunas. As colunas deveriam ter pelo menos 48 linhas e, no máximo, 60. Cada
 linha tinha que ter 30 letras. O espaçamento entre as cartas, linhas, seções e livros tinha 
que seguir regras muito específicas também. A Torah tinha que terminar exatamente no fim 
de uma linha. Nada, nem mesmo uma parte de letra, poderia ser escrita de memória. A tinta tinha que ser preta e ser feita de forma muito específica. O nome de Deus não poderia ser a primeira coisa escrita após mergulhar a caneta na tinta. O copista tinha que usar roupas 
próprias e seguir certas regras de higiene.

Flávio Josefo, um dos historiadores judeus mais confiáveis do primeiro século, ao defender 
a seriedade com que o judeu lidava com as Escrituras, escreveu o seguinte: “Nós temos 
dado prova prática de nossa reverência pelas nossas Escrituras. Pois, apesar de longos 
anos terem agora se passado, ninguém ousou acrescentar, ou remover, ou alterar uma 
sílaba; e isso é um instinto para cada judeu, desde o dia de seu nascimento, de olhá-las 
como decretos de Deus, de viver por eles, e, se necessário for, alegremente morrer por 
eles. De vez em quando, vemos prisioneiros suportando tortura e morte de diversas formas 
nos teatros, em lugar de sussurrar uma única palavra contra as leis e os documentos adjacentes.”[1]

E, ao comparar o respeito dos hebreus pelas Escrituras com o respeito dos gregos por 
sua literatura, ele escreve: “Qual grego suportaria isso pela mesma causa? Até mesmo para salvar uma coleção inteira dos escritos de sua nação da destruição ele não encararia o 
mínimo de ferimento pessoal. Pois para os gregos elas são meras histórias improvisadas de acordo com a vontade de seus autores; e com essa estima até mesmo os mais velhos historiadores são justificados, quando eles veem alguns de seus próprios contemporâneos se aventurando a descrever eventos nos quais não tiveram qualquer parte, sem se darem ao trabalho de procurar informações daqueles que conhecem os fatos.”[2]

Entre 500 e 900 d.C., os massoretas foram os que assumiram a transmissão das cópias 
feitas pelos talmudistas. Esses também tinham uma forma muito estrita de produzir as cópias. Ao finalizar cada cópia, o copista deveria contar letra por letra para verificar se não havia cometido qualquer erro. Se encontrasse um erro, a cópia era queimada e começava-se tudo novamente. Eles sabiam até mesmo quantas vezes cada letra do alfabeto aparecia em cada livro! Esses textos são os usados pelos judeus e cristãos até hoje.

Porém, a dúvida pairava sobre a cabeça de muitos, já que a cópia mais antiga que havia 
do Antigo Testamento era datada de 1000 d.C.! Como se assumia que o cuidado para 
fazer as cópias era bastante grande, não se duvidava da confiabilidade dos escritos. Mas 
não havia como ter certeza – até ser feita uma descoberta fascinante.

Os Manuscritos do Mar Morto

Em 1947, ao procurar uma cabra perdida, dois pastores começaram a jogar pedras em algumas cavernas para ver se afugentavam a cabra de dentro delas. Em uma das cavernas, 
um dos pastores ouviu o som de vasos se quebrando. Com isso, fugiram amedrontados por achar que se tratava de “espíritos”. Mais tarde, um deles retornou para ver o que havia lá, e encontrou dezenas de vasos que continham manuscritos muito antigos. Vendo neles a possibilidade de ganhar um dinheiro extra, vendeu-os aos mercadores de artigos antigos em Belém. Só depois de muito tempo os estudiosos viriam a descobrir o imenso valor desses manuscritos.

Esses vasos provavelmente haviam sido escondidos nas cavernas pela comunidade dos essênios, que vivia nas montanhas de Qumran, situadas a noroeste da costa do Mar Morto. 
Os homens guardaram os manuscritos nos vasos pouco antes de a comunidade ser invadida pelos romanos, na destruição de Jerusalém, no ano 70 d.C., possivelmente com a intenção 
de preservar os escritos. Segundo William Albright, o famoso especialista dos manuscritos 
da Universidade Johns Hopkins e um dos primeiros a saberem dessa descoberta, essa foi “a mais importante descoberta de manuscritos dos tempos modernos”.

Com o anúncio de que esses manuscritos eram muito valiosos, começou uma verdadeira 
caça-ao-tesouro nas cavernas de Qumran, e mais de 40 mil fragmentos foram encontrados. Desses fragmentos, havia cópias de pedaços de todos os livros do Antigo Testamento, com exceção do livro de Ester. Mais importante ainda é o fato de que eles datam do terceiro 
século a.C. até o primeiro século d.C., ou seja, são muito mais antigos que os manuscritos 
que havia na época. Foram encontradas, por exemplo, citações de Eclesiastes e Daniel 
datadas de apenas 100 a 200 anos depois da composição dos livros originais!

Esses achados foram cruciais para se constatar quão acurada era a forma de transmissão 
dos manuscritos bíblicos. Quando os especialistas compararam os Manuscritos do Mar 
Morto com os manuscritos então disponíveis, perceberam que havia uma exatidão de 95% entre eles. Os outros 5% se referem apenas a diferenças ortográficas.

David Noel Freedman, falecido arqueólogo da Universidade Johns Hopkins que 
acompanhou o estudo a respeito dos manuscritos desde sua descoberta, disse que os Manuscritos do Mar Morto “mudam o curso do academicismo bíblico porque provam 
que o texto da Bíblia hebraica que chegou até nós é mais confiável do que se pensava anteriormente – que menos mudanças escribais ou editoriais ocorreram através dos 
séculos do que os acadêmicos uma vez imaginaram”.[3]

Corroboração arqueológica

A acurada transmissão e o fato de os textos quase não terem sido prejudicados com
 o passar do tempo não ajudam muito se não temos uma forma concreta de saber se 
as histórias em si coincidem com os dados históricos. A arqueologia nos ajuda a constatar 
se os locais, os eventos e os personagens realmente existiram. Joseph Free, arqueólogo e professor de arqueologia e história na Universidade Estadual Bemidji, diz que, “além de 
iluminar a Bíblia, a arqueologia tem confirmado inúmeras passagens que têm sido rejeitadas pelos críticos como não históricas ou contraditórias em relação a fatos conhecidos”.[4]

Alguns achados

Prisma de Taylor: quando a cidade de Nínive foi escavada, esse achado chamou muito a atenção dos estudantes da Bíblia. Essa inscrição descreve diversas vitórias de Senaqueribe, 
rei da Assíria, sobre alguns povos vizinhos. Ele se refere ao cerco da Assíria a Jerusalém, 
que naquela época era governada por Ezequias.

Diz o texto: “Quanto a Ezequias do país de Judá, que não se tinha submetido ao meu jugo, 
sitiei e conquistei 46 cidades que lhe pertenciam. [...] Quanto a ele, encerrei-o em Jerusalém, sua cidade real, como um pássaro na gaiola...” Essa história se encontra em alguns textos bíblicos como 2 Reis 18, 2 Crônicas 32 e Isaías 36 e 37. O interessante é que não se tem 
uma declaração clara de que Jerusalém tenha sido conquistada por Senaqueribe, como é deixado bem claro em relação às outras cidades. Isso se encaixaria perfeitamente com a descrição bíblica do evento: Deus de forma incrível livrou o povo das mãos dos assírios.

Cilindro de Ciro: um cilindro de argila do sexto século a.C. traz o decreto de Ciro, da 
Pérsia, permitindo que os cativos da Babilônia voltassem às suas casas e adorassem seus deuses. Esse decreto pode ser encontrado no relato bíblico de Esdras 1:1-3 e 6:3, assim 
como em 2 Crônicas 36:23 e Isaías 44:28.

Obelisco Negro de Salmanasar: monumento que registra a imagem de um tributo feito 
ao rei assírio Salmanasar III pelo rei de Israel, Jeú.

Épico de Gilgamesh: também encontrado na biblioteca de Nínive é formado por uma 
série de doze tabletes contendo o poema épico sobre um rei chamado Gilgamesh. O 
relato do tablete 11 descreve claramente uma história extremamente similar à do dilúvio, encontrado em Gênesis 7-8.

Pedra Moabita: inscrição que cita o nome de Mesha, rei moabita que se rebelou contra o domínio israelita do Rei Acabe (2 Reis 3) e menciona o nome de Yahweh.

Estela de Tel Dã: uma inscrição em aramaico que se refere ao reino de Judá como “a 
casa de Davi”; primeiro documento extrabíblico que evidencia o reinado de Davi sobre Jerusalém.

Citamos apenas alguns achados, mas poderíamos falar de muitos outros. Para poupar
 tempo, mencionarei apenas alguns dos personagens, eventos e lugares que foram 
confirmados por meio da arqueologia:

• Leis parecidas com as de Êxodo e Levítico
• Hititas
• Costumes do tempo patriarcal (Gn 15-31)
• Povo de Israel já estabelecido em Canaã em meados de 1200 a.C.
• Filisteus (Jz 14-16; 1Sm 17)
• Religião cananita (Nm 15; 1Rs 11; Jr 23; Os 13)
• Cidade de Dã (Jz 20:1), Megido (2Rs 23:29; 2Cr 35:22), Askelon (Jz 1:18,19; 
Am 1:6-8), Siló (Js 18; 1Sm 1-4), Berseba, Babilônia, Ur a cidade de Abraão (Gn 11:31), Siquém (1Rs 12:25, Js 20), Jericó (Js 6) e provavelmente Sodoma e Gomorra
• Objetos do templo de Salomão
• Os personagens Uzias, Oséias, Ezequias
• Rei Jeú, rei Nabucodonosor e rei Ciro
• O túnel que Ezequias mandou construir (2Rs 20:20)
• O sacerdote Hezir

Com esses e muitos outros achados, não parece ser exagero o que o apologeta Henry 
Morris disse: “Essa grande antiguidade das histórias bíblicas em comparação com outros escritos, combinado com as percepções evolucionárias do século 19, levaram muitos 
eruditos a insistir que as histórias bíblicas também eram em sua grande maioria meramente lendárias. Porque não havia nada disponível exceto cópias de manuscritos antigos. […] 
Agora, porém, não é mais possível rejeitar a historicidade substancial da Bíblia, pelo menos 
tão longe quanto o tempo de Abraão, por causa das descobertas marcantes da 
arqueologia.”[5]

Aprovados pelo Novo Testamento e pelos judeus da época

De acordo com Jesus, o Antigo Testamento é uma revelação específica sobre Deus e 
também sobre Ele mesmo. Uma das melhores formas de reconhecê-Lo como a pessoa que dizia ser.

Dos 39 livros no Antigo Testamento, 18 são citados pelos personagens do Novo 
Testamento em uma linguagem que dá a entender que os viam como inspirados por Deus, 
ou seja, eram tidos como livros canônicos, o que indica que já eram considerados 
sagrados naquela época. Apesar da diferença aparentemente grande de livros citados 
e não citados pelo Novo Testamento, a maioria dos que não aparecem é muito 
semelhante aos livros citados.

Com a destruição de Jerusalém em 70 d.C., os judeus se tornaram um povo disperso
 e cada vez mais necessitado de um texto sagrado padrão para manter suas crenças 
e seus costumes, mesmo a distância. A maneira encontrada foi unir os livros considerados sagrados e considerá-los um documento só. O historiador judeu Josefo menciona os 
livros do Antigo Testamento e implicitamente demonstra que não havia disputa a respeito 
da autenticidade ou da inspiração dos documentos. Havia, sim, unanimidade.

A dificuldade que muitos têm de acreditar no Antigo Testamento como verdadeiro e 
confiável definitivamente não está relacionada com a falta de evidências. Muitas vezes, 
essa dificuldade está mais relacionada com o fato de se querer recorrer aos “grandes pensadores” do nosso século, que ignoram as evidências e levam muitos junto consigo. 
Algo mais ou menos parecido com aquilo que o rei Asa fez: “E, no ano trinta e nove do
 seu reinado, Asa caiu doente de seus pés, a sua doença era em extremo grave; contudo,
 na sua enfermidade, não buscou ao Senhor, mas antes os médicos.”[6]


1. Flavio Josefo, Josephus Complete Works, p. 179, 180
2. Idem, p. 181
3. David Noel Freedaman e Pam Fox Kuhlken, What are the Dead Sea Scrolls and Why do They Matter?, p. 4
4. Joseph Free, Arqueology and Bible History, p. 1
5. Henry Morris, Many Infalible Proofs, p. 300
6. 2 Crônicas 16:12

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