terça-feira, 7 de junho de 2011

Pouco produto para combater a fome


Há quase 1 bilhão de pessoas no mundo que vão dormir com fome todos os dias de suas vidas. E as perspectivas não são nada animadoras: a produção de alimentos não segue a mesma velocidade de cruzeiro que o crescimento da população mundial, e muito menos o acesso desta à comida. O mundo passou de 2,5 bilhões de habitantes em 1950 para cerca de 7 bilhões atualmente. A ONU calcula a taxa de fertilidade e espera 9 bilhões de habitantes em 2050. É como dizia o economista Jeffrey Sachs, um país abarrotado.

Abarrotado de futuros trabalhadores, consumidores, líderes e subordinados, mas sobretudo, em todos os casos, 2 bilhões a mais de futuras bocas para alimentar. Dois bilhões a mais de estômagos que, segundo concordam os especialistas, terão de pagar a comida mais cara que nunca.

O mundo enfrenta o segundo choque de preços dos alimentos desde a crise alimentar de 2007-2008. O aumento do petróleo (que em 2008 alcançou seu máximo histórico), os subsídios nos países mais ricos, o uso dos campos para a produção de biocombustível e as eventuais más colheitas se combinam habitualmente no aumento do preço da alimentação.

Um dos problemas é que esses – hoje – quase 7 bilhões de pessoas que esperam sua ração se nutrem de muito poucas fontes, o que representa um risco fenomenal para a oferta de alimentos. Os EUA, por exemplo, controlam 73% do mercado de milho em todo o mundo. Um problema climático naquele país representa um tremendo abalo para esse mercado.

Um punhado de cifras dá conta do nível de dependência que há em relação a alguns países, à margem de que as condições naturais de um território favorecem a produção de um tipo de produto e a especialização. Cinco países controlam 90% das exportações de arroz (EUA, com 68%, seguido de Coreia, Japão, Tailândia e China). Além do caso do arroz e do milho, também há uma elevada concentração no mercado de trigo (os EUA vendem 25% do total, o Canadá 13% e a Austrália, Rússia e França 11% cada), segundo indica o Instituto de Pesquisa de Políticas Alimentares dos EUA (IFPRI na sigla em inglês). “Há uma alta concentração desses produtos e o principal risco é que qualquer transtorno climático em um desses países tem um efeito direto nos preços”, adverte Máximo Torero, desse grupo de pensadores americano.

A alta inflação está afetando todos os países em desenvolvimento, incluindo aqueles com maior número de pessoas pobres. Por exemplo, entre dezembro de 2009 e dezembro de 2010 a inflação alcançou 10% na China e 18% na Índia, puxada sobretudo pela carne, peixe, laticínios, legumes e frutas.

“Mais que uma segunda crise alimentar em três anos, creio que esta é a mesma crise que se prolonga, porque as causas estruturais persistem, por isso temos uma crise prolongada que teve um pico em 2008″, reflete Jesús González Regidor, professor de Economia e Política Agroalimentar da Universidade Autônoma de Madri, que assessorou neste assunto a OCDE e a Comissão Europeia.

A oferta não cresce com a mesma velocidade que a demanda porque os avanços tecnológicos estagnaram. Além disso, parte dos cultivos é desviada para a produção de biocombustíveis muito subvencionados e, como pano de fundo, há uma mudança radical na demanda, pois gigantes como China e Índia estão melhorando seu nível de renda e pedem mais ao supermercado do mundo. A concentração, concorda o professor, é outro fator. “O grande mercado de matérias-primas movimenta grandes volumes com poucos investidores, os preços são marcados praticamente nas grandes Bolsas de Chicago, Nova York, Londres…”, aponta Regidor.

À conjuntura — a instabilidade política que provoca o pânico comprador em muitos países, os desastres climáticos ou o preço do petróleo — somam-se os problemas estruturais. Segundo um relatório que acaba de apresentar a ONG Intermón Oxfam, apenas 500 empresas controlam 70% do setor alimentar em todo o mundo. E três empresas agrícolas –Cargill, Bunge e ADM — dividem boa parte do comércio de cereais. Para Gonzalo Fanjul, diretor de estudos da ONG, há países muito eficientes, com recursos naturais e grande capacidade comercial, e outros, entre os quais destaca os EUA e os europeus, que contam com uma quantidade colossal de subsídios para sua agricultura, embora já sejam grandes exportadores.

“Isso representa uma desvantagem para outros países, por exemplo, os da África subsaariana, que têm muita capacidade potencial mas não conseguem melhorar sua agricultura comercialmente devido às altas tarifas impostas em outros mercados, como é o caso da UE”, explica Fanjul.

A ONG implementou esta semana em 24 países a campanha Cresça para Combater a Fome. Entre outras medidas, a iniciativa lança uma crítica à política de ajudas nos países avançados e calcula em US$ 252 bilhões o total que os países recebem da OCDE.

“Eliminar as barreiras alfandegárias ajudaria”, admite Torero. Mas a realidade não aponta para essa tendência. As pressões de caráter protecionista, incluindo restrições, estão crescendo nos países que formam o G-20, segundo o último relatório de vigilância elaborado pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

Mas pode-se dar um corte brusco nos subsídios? “Essa é uma questão política muito delicada e os países têm autonomia nisso”, responde Torero, embora defenda “dar mais informação ao mercado sobre esses subsídios, que as pessoas os conheçam bem”.

O número de pessoas famintas no mundo cresceu nos últimos anos. Os altos preços dos alimentos e a crise empurraram outros 115 milhões de pessoas para a pobreza e a fome, segundo a Agência de Agricultura da ONU (FAO). Em 2009 o número total de pessoas famintas no mundo alcançou 1 bilhão, e embora desde então o número tenha baixado para 925 milhões a ONU contempla um novo aumento devido à última onda inflacionária.

Uma escalada do petróleo revoluciona os preços, o que é um incômodo para as economias ocidentais, uma notícia constante na mídia e um novo problema para os orçamentos familiares. Mas ao falar dessa parte pobre do planeta o incômodo passa à categoria de drama. “O encarecimento dos alimentos tem um efeito direto nessas cifras porque os pobres destinam grande parte de seu orçamento (de 50 a 70%, contra 10 ou 20% nos EUA) aos alimentos”, aponta Torero. Por isso um aumento da cesta básica é letal para essa economia familiar.

Esse mundo de 2050 precisa produzir mais. Há algumas estimativas sobre isso: a produção de carne terá de crescer 75%, para 460 milhões de toneladas, e os cereais 3 bilhões, segundo dados de vários estudos citados pelo IFPRI.

A questão é a que preço. Em longo prazo, isso coloca sérias incertezas no campo dos custos para a população. A comida deverá ser cada vez mais cara. A mudança climática tem efeitos nas colheitas e, portanto, no comportamento dos preços.

Os alimentos básicos como o trigo, o arroz, o gado ou o milho sofrerão aumentos de 100 a 180% até 2030, incorporando o efeito da mudança climática, segundo a Oxfam. Torero, do IFPRI, matiza essa avaliação: “A mudança climática claramente pode duplicar o preço dos alimentos em 40 anos, mas o maior problema que gera não é tanto isso, como a volatilidade”.

“Estamos sentados sobre uma bomba-relógio e não é por acaso”, alerta Fanjul. Segundo a Oxfam, até 2050 a demanda de alimentos aumentará 70% e, no entanto, a capacidade para aumentar a produção de alimentos está em declínio, já que a taxa de crescimento no rendimento das colheitas caiu acentuadamente. “Se não melhorarmos em nível de reservas e de produtividade, a situação será crítica. Se não aumentar a produção mundial e os importadores líquidos, e a China começar a comprar no mundo… A situação é muito delicada”, indica Máximo Torero.

Bettina Prado, do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Ifad), acredita que os países estão reagindo melhor do que três anos atrás. “A comunidade internacional, muitos governos se mostraram melhor preparados e vemos que recorrem menos às restrições comerciais”, indica, e pede cautela antes de prever uma crise global a toda regra, mas admite: “Não há dúvida de que reduzir a fome e a desnutrição enquanto a população mundial continuar crescendo é um grande desafio para os próximos anos”. O Ifad acredita que os pequenos proprietários de terras de países em desenvolvimento podem desempenhar um papel mais importante do que têm agora, ajudando a alimentar a população nas próximas décadas.

Mais produtividade agrícola, sustentável, adaptar-se e mitigar ao mesmo tempo os efeitos da mudança climática, melhorar a situação das mulheres no campo, que realizam cerca da metade do trabalho mas têm pouco acesso ao crédito, à tecnologia e aos serviços… A lista de tarefas é interminável. A Oxfam lhe acrescenta um controle do investimento especulativo nos mercados e também a aquisição e apropriação de terras nos países menos desenvolvidos.

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