terça-feira, 6 de setembro de 2011

Os quatro pilares do sistema global estão se desfazendo ao mesmo tempo

Autor: Thomas Friedman, editor do The New York Times
Segurem os seus chapéus e carteiras. Desde o fim da Guerra Fria, o sistema global vem se mantendo coeso em grande parte devido a quatro acordos críticos. Atualmente todos os quatro estão se desfazendo ao mesmo tempo e precisarão ser reconstruídos. Se e como será feita tal reconstrução – começando pelos Estados Unidos – é o que determinará em grande parte o que conterá a nossa carteira e se o nosso chapéu sairá ou não voando.

Bem, vou colocar a situação de forma bem direta: a União Europeia está se fragmentando. O mundo árabe está desmoronando. O modelo de crescimento da China está sob pressão e o modelo de capitalismo dos Estados Unidos, movido pelo crédito, sofreu um ataque cardíaco de advertência e necessita passar por uma total reavaliação.

Promover uma reforma de um só desses fatores já seria uma tarefa enorme. Mas implementar as quatro ao mesmo tempo – em um momento no qual o mundo se encontra mais interconectado do que nunca – seria algo simplesmente extraordinário. Nós nos vemos novamente “presentes na criação” - mas na criação do quê?

Comecemos pelo Oriente Médio, o poço de petróleo do mundo. Os líbios acabam de se juntar aos tunisinos, egípcios e iemenitas na derrubada dos seus ditadores, enquanto os sírios e os iranianos esperam seguir esse exemplo em breve. Com o tempo, praticamente todos os autocratas do Oriente Médio serão depostos ou obrigados a compartilhar o poder.

O velho modelo não tem como se sustentar. Tal modelo baseava-se em reis e ditadores militares que se apossavam das receitas oriundas do petróleo, entrincheirando-se no poder – protegidos por exércitos e serviços de segurança bem financiados – e comprando segmentos chaves das suas populações. A tampa que escondia essas práticas foi arrancada explosivamente por uma rebelião da juventude árabe que atualmente pode ver como todos os demais estão vivendo e que não aceita mais prontamente ser deixada para trás, não receber educação, ficar desempregada, ser humilhada e viver em estado de impotência.

Mas embora esse velho sistema do Oriente Médio – baseado em um punho de ferro e na manipulação de petrodólares para manter coesas sociedades multiétnicas e multirreligiosas – tenha se fragmentado, levará algum tempo para que essas sociedades redijam os seus próprios contratos sociais para determinar como elas viverão sem que haja um punho de ferro controlando-as a partir de cima. Esperem o melhor, mas preparem-se para tudo.

Mais ao norte, a União Europeia e da zona do euro constituíam-se em uma boa ideia, que poderia ser exposta da seguinte forma: teremos a partir de agora uma união monetária e uma moeda comum, mas deixemos que cada um administre a sua própria política fiscal, contanto que eles prometam trabalhar e poupar como os alemães.

Ah, mas isso era muito bom para ser verdade. Grandes programas de welfare (Estado de bem-estar social) em alguns países europeus, sem contar com as rendas oriundas da produção local para financiá-los, acabaram levando a uma montanha de dívida – dívida que são, em sua maioria, propriedade de bancos europeus – e, a seguir, a uma revolta dos credores.

Os produtores e poupadores do norte da Europa estão agora costurando um novo acordo com os gastadores – os chamados PIIGS: Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. É improvável que os alemães simplesmente pulem fora da União Europeia, já que uma grande parcela das suas exportações se destina a esses países que gastam demais e que não são competitivos. Em vez disso, os europeus do norte estão tentando impor aos PIIGS uma disciplina mais rígida e baseada em regras.

Mas que quantidade de medidas austeras esses países seriam capazes de absorver, especialmente se houver mais estresse social devido a recessões profundas? Não serão apenas os londrinos que sairão às ruas. De uma maneira ou outra, a União Europeia ficará menor ou mais rígida, mas nesse processo ela poderá passar por uma transição caótica e traumática que ainda não foi contabilizada em termos de mercado.

Seguindo para o leste, a China tem se baseado em um modelo construído sobre uma moeda deliberadamente desvalorizada e em um crescimento liderado pela exportação, com baixo consumo doméstico e alto nível de poupança. Isso permitiu ao Partido Comunista chinês sustentar um acordo único com o seu povo: nós lhes daremos empregos e melhores padrões de vida, e vocês nos darão o poder.

Mas agora esse acordo está ameaçado. O desemprego persistente nos mercados norte-americanos e europeus da China está fazendo com que o modelo de Pequim, baseado em uma moeda desvalorizada, no baixo consumo e no alto índice de exportação, se torne menos sustentável para o mundo.

A China também precisa enriquecer antes que envelheça. Ela precisará sofrer uma mudança de uma situação em que os dois genitores poupam para um filho, para outra em que um filho pagará pela aposentadoria dos dois genitores. Para fazer isso, o país precisará fazer uma transição de uma economia baseada na montagem, na cópia e na manufatura para outra baseada no conhecimento, nos serviços e na inovação. Isso exigirá maior liberdade e mais Estado de direito, e já é possível presenciar uma demanda crescente por isso. Alguma parte terá que ceder na China.

Quanto aos Estados Unidos, nas últimas décadas nós prosperamos com uma economia guiada pelo consumo e pelo crédito, por meio da qual nós sustentamos uma classe média com a utilização de mais esteróides (crédito fácil, hipotecas subprime e construção civil) e menos criação de músculos (educação, criação de qualificação profissional e inovação). Isso nos lançou em um enorme buraco, e, agora, a única forma de sairmos dele é por meio de políticas novas e híbridas que misturem cortes de gastos, aumento de impostos, reforma cambial e investimentos em infraestrutura, educação, pesquisa e produção.

Mas essa mistura não se constitui na agenda de nenhum dos dois partidos. Existem as seguintes possibilidades: ou os nossos dois partidos encontram uma maneira de colaborar em uma postura de centro em relação a essas novas políticas híbridas, ou um terceiro partido emergirá – ou então a nossa atual situação de estagnação e sofrimento só piorará.

Em um momento no qual o mundo experimenta tantas mudanças drásticas ao mesmo tempo – em uma situação que já é caracterizada por um alto nível de desemprego e por economias fracas –, a necessidade de que os Estados Unidos, o mais importante de todos os pilares, sejam sólidos como uma rocha é maior do que nunca. Se não nos organizarmos – algo que exigirá uma ação coletiva que normalmente está reservada para períodos de guerra –, nós não estaremos apenas prolongando uma crise norte-americana, mas também alimentando uma crise global.

Fonte: UOL (colaboração: Cléo de Castro)

Nota: Mundo árabe sendo alterado? Europa desunida? EUA assumindo papel de mais importante pilar mundial? Oh, como cada vez aprecio mais a mensagem Adventista...

E, já agora, um pormenor a propósito deste artigo que coloquei há dias: reparou como Friedman também aponta o regime iraniano (juntamente com o sírio) como o próximo a seguir o exemplo do Egito e da Líbia? E que todos os outros regimes autocratas cairão?!... Revelador, sem dúvida!

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