quarta-feira, 28 de março de 2012

Professor se espanta com crentes instruídos


Enquanto que em alguns países, que encabeçam o ranking de melhor qualidade de vida (IDH), medido pela ONU (Holanda, Austrália, Irlanda, Suíça, Reino Unido, Suécia, Finlândia, Canadá e Noruega), o número de pessoas que se declaram religiosas está diminuindo, noutras regiões do mundo esse número cresce aceleradamente. Quem está desde muitos anos no meio religioso, ou acompanha sua história, se lembra dos anos 1960-80, quando muitos jovens desistiam do cristianismo de seus pais para se juntarem aos novos grupos de misticismo oriental, pois muitos destes jovens tomavam essa decisão porque acreditavam que o cristianismo era uma religião decadente, destinada a desaparecer em breve.  Então, é curioso observar como nos países do topo do ranking do IDH a onda de misticismo oriental diminuiu para dar lugar a um crescente secularismo, enquanto que nos outros países, nas posições seguintes do ranking, o misticismo oriental diminuiu para dar espaço ao ressurgimento do cristianismo, com exceção dos seguintes países: China, Cuba e Coreia do Norte.

Agora, um fato intrigante: nos países onde a religiosidade está crescendo não é só a velocidade desse crescimento, mas, surpreendentemente, também o aumento do número de religiosos com alta escolaridade.  O Brasil é um deles. Enquanto muitos pensam que religião é assunto para os desinformados, espanta testemunhar atualmente pessoas de alta formação acadêmica, ou mesmo profissionais de sucesso, envolvidos com as religiões tradicionais que, para os jovens das gerações de algumas décadas anteriores, eram instituições moribundas. O resultado é uma polaridade que coloca de um lado os elevados conhecimentos científicos e tecnológicos que fazem as pessoas exercerem suas profissões com brilhantismo, e, do outro lado, uma visão de mundo com base em uma mentalidade obsoleta [sic], que as leva a assumir um modo de vida religioso correspondente. O interessante é que, quando conversamos com essas pessoas, é curioso notar o contraste entre o alto nível das suas ideias seculares e das suas conquistas profissionais, com o baixo nível das suas concepções pessoais e da sua visão de mundo, sobretudo quando falam de valores e de religião. Até parece que são pessoas que vivem em duas épocas distintas, ou seja, que profissionalmente vivem no século 21, mas religiosamente vivem na Antiguidade ou na Idade Média. Elas falam de assuntos seculares com racionalidade e com cientificidade, no entanto, acreditam, ao mesmo tempo, em crenças tão infantis e ingênuas que até parece que não são as mesmas pessoas que estão falando. [Mais abaixo comentarei sobre a estupefação do autor deste texto.]

Um dos exemplos mais intrigantes na comunidade científica é o de Francis S. Collins, um dos mais respeitados cientistas da atualidade, foi diretor do Projeto Genoma nos anos 2000, porém, um cristão devoto [e ex-ateu, faltou dizer]. Em seu livro, A Linguagem de Deus (Editora Gente, 2007), é possível notar o brilhantismo de Collins quando fala de Biologia em contraste com a ingenuidade das suas ideias quando fala de suas convicções religiosas. Daí que é curioso questionar por que essas pessoas não transferem seus conhecimentos científicos, recebidos na sua formação escolar, bem como seus conhecimentos técnicos de profissão, para a formação de sua visão de mundo e da consequente escolha do seu modo de vida. E quando transferem, como no caso de Collins e outros, afirmam não encontrar nenhum conflito. Outros chegam até a fazer conciliações entre as ideias científicas e as crenças religiosas. [...]

[O autor deste texto segue analisando o papel da educação em construir uma ponte entre o conhecimento secular capaz de “superar” o obscurantismo da religião e as pessoas que, segundo ele, estão iludidas. Para ele,] esse trabalho tem de ser feito pela Filosofia, uma vez que a Ciência não é um empreendimento de formação e de julgamento de valores, essa tarefa é da Filosofia, portanto é ela quem tem que construir essa ponte entre o conhecimento científico e a formação de visão de mundo de cada indivíduo, através do juízo de valores seculares. Do jeito que está a situação atual, as pessoas instruídas sabem fazer uso da Ciência e da tecnologia em assuntos seculares, mas na hora de fazer juízo de valores, elas ainda recorrem à religião, pois não aprenderam a fazer esses juízos a partir da cultura secular que receberam na escola, pois essa função cabe à Filosofia. [Isso quer dizer que gente do calibre de Collins e muitos outros teístas ainda não aprenderam a pensar direito? Falta-lhes filosofia para aprender a pensar de maneira secular?]

Por exemplo, segundo levantamentos, o número de pessoas que ainda acredita que o mundo foi criado por deus [sic] é muito maior do que o número daquelas que acreditam que o mundo é produto da evolução. Surpreende quando encontramos muitos diplomados em universidades que ainda acreditam na criação divina [a mim não surpreende, pois esses intelectuais estão pensando a partir da causa para o efeito, ao passo que os naturalistas, como o autor deste texto, lidam apenas com os efeitos sem se preocupar com as causas ou a Causa]. A razão da sobrevivência de tal crença pode ser que, ao analisarem a criação do mundo, essas pessoas a associam à vida e, consequentemente, a um significado, a um sentido e a uma finalidade para a existência humana, de maneira que não separam o mundo e a vida de um lado e o destino humano de outro [na verdade, muitos cientistas e pensadores chegam à conclusão de que o evolucionismo está equivocado simplesmente por concluir que na base do acaso e da aleatoriedade a complexidade específica da vida e as leis do Universo jamais teriam surgido; e essa reflexão nada tem que ver com religião, necessariamente]. [...]

A Racionalist International, uma associação secular sediada na Índia, mantém um programa, com autorização do governo, através de agentes dessa associação que visitam regularmente as escolas secundaristas daquele país, para falar do valor e da importância do pensamento racional e da Ciência, uma vez que lá a Filosofia Ocidental não é ensinada nas escolas. Agora, será que, mesmo com o ensino da Filosofia nas escolas aqui, a implantação de um mesmo programa será necessária e conseguirá reverter a situação? Será possível um dia erradicar a carolice do ambiente filosófico? Bem… só a Evolução sabe! [Era só o que faltava: criar um grupo de missionários ateus para evangelizar as crianças nas escolas... Se depender de Dawkins, éexatamenteisso o que será feito.]


Nota: Embora discorde da argumentação central de Botelho em seu artigo acima, reconheço que ele apresenta dados interessantes que merecem uma análise mais acurada. Por exemplo: segundo ele, países com alto IDH são mais secularizados. Mas isso é óbvio, uma vez que esses países têm dinheiro e conforto de sobra, acham-se autossuficientes e é exatamente isso, principalmente, o que alimenta o secularismo. O consumismo e as múltiplas opções de lazer distraem as pessoas, dificultando o pensamento filosófico/teológico; o pragmatismo da vida orientada para o acúmulo de bens e a ilusão de que a ciência e a tecnologia são capazes de resolver todos os problemas levam as pessoas desses países a postergar a busca de respostas para as perguntas fundamentais: De onde vim? Para onde vou? Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Elas simplesmente não pensam nisso ou não têm tempo para pensar nisso. No fim da vida, muitas delas acabam se voltando para essas questões, como fizeram muitos filósofos na velhice, a exemplo de Heinrich Heine e outros. Cuba, China e Coreia do Norte ainda vivem sob a sombra do comunismo anacrônico e de fortes cores ateístas (regimes tão impostos quanto o das teocracias ditatoriais), praticamente o mesmo regime que foi à bancarrota na Rússia, permitindo a abertura para o cristianismo que cresceu bastante por lá. Portanto, ainda não dá para tomar como exemplo esses três países exceções. Os países (ou as gerações) que antes haviam abraçado o misticismo e hoje se voltam novamente para o cristianismo por certo devem ter percebido que, de fato, não conheciam o cristianismo verdadeiro; conheciam apenas aquele cristianismo empoeirado pelas tradições da igreja dominante; religião que lhes foi imposta por herança. Mas, quando se depararam com o vácuo existencial que o misticismo cria, se voltaram para a única religião que pode satisfazer o anseio da alma, posto que fundada pelo Deus verdadeiro e ressurreto; o Criador do Universo e do ser humano (único que conhece e supre nossas necessidades); o Alfa e o Ômega. Botelho se espanta com a conciliação entre ciência e religião feita pelo Dr. Collins, mas poderia ter mencionado, também, os próprios pais da ciência que fizeram uma conciliação ainda mais estreita entre essas duas áreas do conhecimento: Isaac NewtonGalileu GalileiCopérnico, ou mesmo Blaise Pascal, Pasteur e tantos outros nomes da ciência que foram profundamente religiosos. No presente, ele poderia citar Antony Flew, tido como o maior filósofo ateu do século 20, mas que, no entanto, depois de muito refletir, poucos anos antes de morrer abraçou o cristianismo. O que dizer também de filósofos doutores como o ex-ateu Ravi Zacharias William Lane Craig? Não sabem pensar? Não conhecem a filosofia? Botelho acredita que as pessoas precisam fazer juízos de valores numa base secular sem recorrer à religião. Mas qual seria, nesse caso, o ponto de referência para esses valores? A mutável filosofia humana? Sem uma verdade absoluta, uma moral superior às quais recorrer, como poderíamos definir o que é certo e o que é errado? E, ainda que pudéssemos definir algo parecido com isso, o que nos garante que esses valores serão os mesmo daqui a alguns anos? Francis Bacon tinha razão: “Pouca filosofia nos afasta da religião; muita filosofia nos aproxima dela.”[MB]

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